CALADA

Calada, calada ...
Com tanta coisa p’ra dizer!
Assim me encontro
Diante deste mar imenso.
Ante meus olhos levados pela brisa
Vão passando, retalhos de lembranças,
Paixões de mulher,
Encantos de menina,
Noites gélidas,
Dias tropicais,
Momentos de angústia, de júbilo...

E seguem a galope:
Emoções fortes,
Sensações longínquas,
Bizarros personagens...
É meu propósito
Retê-los, revê-los:
¾ Parai, parai por um instante!
¾ Impossível!... Chama-nos o tempo,
A brisa, o Sol
Que já vai mergulhar no oceano.

E lá vão correndo, correndo sempre
E com eles vão meus olhos.
E se não corro para os agarrar
Ter-me-ão fugido, ter-se-ão perdido
Na imensidão do espaço
Enquanto eu resto, queda e muda

Ali por entre o céu e o mar.

 Aida Viegas   (in O Tempo das Delícias)

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